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domingo, 7 de agosto de 2011

Ô Mãe! (Mãe e filho num ponto de ônibus)



—Ô mãe!
— Quê.
— Aquele moço ali tá todo sujo de tinta, óia.
— É.
— Por quê?
— Por que ele está trabalhando.
— Ah...
O menino fez uma pausa. Depois, novamente uma feição interrogativa. Perguntou:
— Ele é pintor?
— Mais ou menos, filho. Ele pinta paredes. E pelo jeito é bom nisso, olha como está ficando!
— Ahn... Mas os pintores não são artistas?
— Nem todos. Esse aí é só um pintor de paredes.
— Ahn... Ô mãe!
— Que é... — Disse a mãe, perdendo a paciência.
— Ele é forte, né? É grandão.
— É que ele deve trabalhar muito, filho.
— Pra ficar musculoso pras mulheres?
A mãe gargalhou.
— Não, filho. Ele trabalha pra se sustentar, pra ganhar dinheiro.
— Ahn... Mas ele tá com uma cara triste.Será que ele é um pintor feliz?
— Sei lá se ele é feliz.
— Você nem se importa? — Perguntou a criança, surpresa, ingênua.
— Ué, filho, e o que é que eu posso fazer?
— Ah, sei lá. Mas ele não é pintor? Os pintores não são artistas? Os artistas não ficam felizes mexendo com aquelas cores bonitas?
A mãe ficou meio tonta. Quantas perguntas!
—Filho, em primeiro lugar, os artistas são malucos... E aquele moço não é artista, ele só pinta paredes! E ainda se suja todo e morre de calor debaixo desse sol forte.
— Peraí! —O garoto franziu a testa e segurou o queixo, como um pequeno pensador. — Então ele suporta o cansaço, a sujeira e o calor pra deixar a casa dos outros mais bonita? Então esse cara é um artista sim, e dos loucos.
A mãe se impressionou com o filho. Depois tentou explicar-lhe:
— Não filho. Esse homem não é artista, nem é louco. Ele faz isso porque precisa de dinheiro — disse ela, gesticulando “dinheiro” com os dedos.
— Ele sofre por causa de dinheiro? Mas o dinheiro serve pra quê se ele sofre? Esse cara é doido, mãe. Tô te dizendo...
A mãe riu um pouco e continuou.
— Filho, dinheiro serve pra comprar comida.
— E depois cagá tudo...
— Filho! Olha a boca!
— Desculpa. Mas eu acho que ele devia ser artista, sabe, parar de sofrer assim. Quem sabe, se ele for bom, pode ganhar dinheiro e comprar comida!
— Ai, esse ônibus que não chega... —Exclamou a mãe, impaciente. — Filho, para de fazer tantas perguntas! Você só tem nove anos! Não pode querer resolver os problemas dos outros.
—Tá bom mãe... — Disse o garotinho, triste...
Fizeram uma pausa. O ônibus já estava chegando, mas o garoto não tirava os olhos do pintor. Foi então que:
— Já sei mãe! Então quem vai virar artista sou eu!

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Imagem: Obra de Paul Klee



sábado, 2 de abril de 2011

Chega de calmantes.



É possível diferenciar "ser feliz" de "estar feliz", já que "ser" representa constância, enquanto "estar" é momentâneo. Uma pessoa feliz sabe lidar com seus maus momentos,, sabe viver de maneira plena e sábia, e permanece autêntica com os amigos. Mas parece que, hoje em dia, há uma ditadura que prega o volátil e momentâneo ato de suprir os prazeres e esquecer as dores, sem eliminá-las nas raízes.
A ditadura da felicidade que vemos hoje em dia pode ser assim descrita. Suas vítimas acabam não vendo a si mesmas, tampouco o mundo que as cerca. Transferem suas dores e expectativas para coisas evanescentes (entretenimento degradante, baladas, moda etc.), e procuram fugir à todo custo de qualquer mínimo incômodo, desde pensar até chorar.
Com isso, o esforço e o autoconhecimento (processos fortalecedores e construtivos do Eu) acabam desvalorizados, e a capacidade psicoemotiva das pessoas atrofia, gerando conformismo generalisado, sedentarismo psicológico, alienação.
Se as pessoas quiserem livrar-se desse mal (o que exige, para começar, conscientização), elas devem parar de fugir de qualquer incômodo, e recorrer à reflexão ao invés de antidepressivos, como nos propõe o psiquiatra Augusto Cury, com seu método de "mesa redonda do eu".
Como também escreve o poeta Ferreira Gullar, "a vida só consome / o que alimenta", ou seja, para "consumirmos" a dor, precisamos identificar suas causas (alimentá-la), e encontrar em nós mesmos a solução (consumí-la). Esta sabedoria é também presente no pensamento de Epicuro.
Quando desistirmos de buscar a felicidade em coisas vãs, que só nos ofereceriam momentos tênues de sorrisos, a felicidade então será uma constante, e virá a Ser.

- Gosta do tema? Recomendo os seguintes artigos:

http://pensassonhos.blogspot.com/2010/07/onde-encontrar-felicidade.html
http://pensassonhos.blogspot.com/2011/02/arquitetura-da-felicidade.html


Fontes Bibliográficas:

Cury, Augusto. Nunca Desista dos seus sonhos. Rio de Janeiro. Sextante, 2004.
Philosophy, a guide to hapiness. Episódio: Epicurus on Hapiness. Documentário.



sábado, 19 de fevereiro de 2011

A Arquitetura da Felicidade

Podemos observar que, em nossa sociedade, praticamente todos procuram construir a felicidade nos terrenos de suas vidas. Parece, entretanto, que a engenharia da felicidade é, para muitos, a ciência mais difícil, não só pela subjetividade do tema, como também pela distorção do conceito, promovida em grandes escalas por corporações e poderosos, armados de suas britadeiras e outros instrumentos de alienação em massa.
A felicidade é um belo edifício, e seu interior é confortável e prazeroso, causando bem-estar. Epicuro era um filósifo grego, não arquiteto. Mas ele nos diz que os principais alicerces da felicidade são as amizades verdadeiras, a liberdade e uma vida autoanalizada. No topo deste edifício, deveria haver a saúde e os prazeres, e o zelador, deveria estar dotado de bom senso e objetivos bem estruturados. Um shopping, segundo Epicuro, seria a completa antítese ou distorção dos conceitos pilares da felicidade.
O problema é que, agora, estes pilares estão em ruínas: as amizades são falsas e superficiais, e há uma epidemia de individualismo; a liberdade do pensamento, a mais fundamental, está em decadência, vista a alienação geral da sociedade, que produz indivíduos ignorantes, incapazes de refletirem sobre a vida.
Portanto, para que as pessoas deixem de ser mão-de-obra barata e passem a ser engenheiros e arquitetos de uma vida feliz, devem aprender a se libertarem dessa cegueira coletiva, para então desenharem bem as bases de um bom futuro, que se sustente em seus alicerces sorridentes.

De Israel Silva.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Feliz ano novo! Mas antes... Uma antologia retrospectiva.

Seleção de trechos dos melhores posts:

16 de Junho, 2010: Prólogo


Sobre o blog:

Pensassonhos é um blog criado para ser minha principal plataforma de expressão virtual. Nele, o leitor encontrará muita poesia, bem como prosas e outros gêneros textuais. Quem liga para os gêneros textuais... O negócio aqui é simples: abordar filosófica e artisticamente qualquer tipo de matéria ou energia, com uma visão multifocal e sistêmica, mas dando ênfase aos acontecimentos da minha própria vida, da sociedade e da vida como um todo.

Também me dou a ousadia de fazer críticas de livros, peças teatrais, filmes etc. Em breve também postarei aqui algumas entrevistas. Aguarde...

Sobre o autor:

Eu, Israel Silva, nasci em São Paulo, em 1993. Sou estudante e escrevo desde os oito anos de idade. Recentemente, no entanto, resolvi levar a sério o hábito da escrita, e não tê-lo mais como um simples hobbie. Já obtive conquistas! Em outubro de 2010, ganhei meu primeiro concurso de redação, e com isso ganhei também bolsas de estudo e uma coluna só minha no Jornal de Terra Preta, que vai entrar em circulação a partir de 2011. Tenho também participado de saraus e projetos culturais. Atualmente trabalho num livro intitulado "Pensassonhos", daí o nome do blog, e pretendo lançá-lo também em 2011.

Sou tecladista e compositor amador também. Em geral, gosto de artes de todos os tipos, filosofia, ciências humanas e cosmologia. Apesar de tudo isso, rexala... eu não sou um ET (eu acho). Bom, isso é até mais do que você precisa saber, leitor amado. Fui!! Valeu.

Follow me on tuíster >> twitter.com/israel_as

17 de Junho, 2010: Você está disposto à assumir os riscos da ética?



Sócrates admitiu que poderia ter evitado sua condenação (beber o veneno chamado cicuta) se tivesse desistido da vida justa. Mesmo depois de sua condenação, ele poderia ter evitado sua morte se tivesse escapado com a ajuda de amigos. A razão para sua cooperação com a justiça da pólis e com seus próprios valores mostra uma valiosa faceta de sua filosofia" (...)

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%B3crates

Agir com #ética e moral pode ser perigoso, chega à dar adrenalina. Mas é como um esporte radical: ESTOU DISPOSTO À ENFRENTAR O RISCO. - Israel A. Silva. Fonte: http://twitter.com/israel_as



21 de Junho, 2010: Insônia - Pensamentos Submersos (Versão Atual)
















Nadam em minha mente fervilhando...
Dentro de mim se debatem horrores violentos
E voam insetos ziguezagueando.

Nesse meu interespaço vazio
Só existem insistem galáxias e agulhas...
Nadam pensamentos submersos em sono,
Pensam lentos providos de brânquias...
SILVA, Israel. Pensassonhos, pg. 10. São Paulo, 2010. Todos os Direitos reservados.

14 de Julho, 2010: Onde encontrar a felicidade?

Algumas frases de Epicuro

“Só há um caminho para a felicidade. Não nos preocuparmos com coisas que ultrapassam o poder da nossa vontade.”
“Nada é bastante ao homem para quem tudo é demasiado pouco.”
“Aquele que melhor goza a riqueza é aquele que menos necessidade dela tem.”
“Queres ser rico? Pois não te preocupes em aumentar os teus bens, mas sim em diminuir a tua cobiça.”
“É estupidez pedir aos deuses aquilo que se pode conseguir sozinho.”
“O prazer não é um mal em si; mas certos prazeres trazem mais dor do que felicidade.”
“Se queres a verdadeira liberdade, deves fazer-te servo da filosofia.”


13 de Agosto, 2010: A mesma mão que acaricia: Crítica aos crimes passionais (Versão Atual, adaptada)















Assassinato Passional



Que amor é esse que pinga sangue em gotas pálidas?
Que jorra terror
Que destroça a face amada numa feição de dor
Que se desmancha em lágrimas ácidas?

Como é possível cruelmente esfacelar
Nas mãos a mesma flor que tu amas
Como se fosse o amor pétala caída?
Que sorte pode-se tirar?

(...)
SILVA, Israel. Pensassonhos. Pg. 77. São Paulo, 2010. Todos os direitos reservados.


11 de dezembro, 2010: Sonata dos Textos Póstumos (em memória de uma paixão qualquer)














1 - Depoimento.

Você é tão pequena e seu coração é tão grande... E eu, que me achava forte, me perdi em incertezas e contradições. Culpa do teu sorriso manso. E agora vejo brotar um mundo de sentimentos cujos quais não tenho controle. Preparo escudos para te proteger das flechas desse mundo. Fecho minhas asas para que as dificuldades não invadam nossa escuridão perfeita.
O tempo vai dizer. Até lá, veremos as flores se destacarem nos escombros.
Até lá,
Te Amo."

2 - Efêmero.

Agora acabou. Deus, ou qualquer coisa poderosa nesta vida, arrancou de nós esta paixão, esta erva daninha. Não tenho muito a dizer, estou ferido. Só isso.

3 - Olhando pra trás.

Pensando bem... Estávamos previstos ao abismo: havia um abismo entre nós. Culpado eu que ignorei os presságios do erro. A paixão surgiu certa na hora errada. Esperávamos um tapete vermelho, mas não sabíamos: nosso caminho escondia serpentes, nossa peçonha era insuficiente.
Fazer o quê? Não há antídoto. Não há.

19 de dezembro, 2010: Depoimento para cortar os pulsos.


Saí do teatro calado, em transe, perdido, com os pulsos cortados. Feliz ao extremo, ainda que não houvesse mais chão para caminhar. Voltei pra casa de minha avó, lembrando-me do amor. O amor foi o foco dos meus pensassonhos durante toda a noite. No dia seguinte, domingo, voltei pra casa em Mairiporã. Estou até agora perdido em pensassonhos, em inspiração, em felicidade, em saudade, em tudo e em nada.
E um agradecimento à você, leitor amado, que deve se perguntar: Vale a pena amar? O que vale a pena nesta vida?

"Razão e Emoção são forças equivalentes e igualmente opostas; o equilíbrio entre ambas causa um equilíbrio cruelmente sadio entre tempestade e bonança. Ironia." - Israel Silva.

"Razão, de que me serve teu socorro? / Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo; / Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro." - Bocage.

— Chega. Vou chorar e rir ao mesmo tempo. Já volto.

Feliz 2011!!